Dinheiro Público & Cia

Receita e despesa, economia e política

 -

Blog explica como os governos tributam os cidadãos e utilizam o dinheiro público.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

Quatro diferenças resultaram no sucesso do Real (e duas semelhanças derrubaram o plano)

Por Dinheiro Público & Cia

O leitor Francisco F. Neto perguntou quais foram as diferenças entre o Plano Real e seus antecessores malsucedidos.

O programa lançado há 20 anos trouxe quatro inovações que permitiram o controle duradouro da inflação; no entanto, repetiu dois erros do passado e entrou em colapso em janeiro de 1999.

As diferenças:

1) Não houve congelamento de preços – Os planos anteriores de controle da inflação -Cruzado (1986), Bresser (1987), Verão (1989) e Collor (1990)- determinaram o controle oficial de preços.

A medida era adotada devido ao diagnóstico correto de que a inflação brasileira não poderia ser combatida apenas com a receita tradicional de juros altos e corte de gastos públicos. Afinal, preços, salários e contratos no país eram (e, em menor medida, ainda são) corrigidos automaticamente pela inflação passada.

Os congelamentos se mostraram uma estratégia errada. Nas datas em que eram decretados, havia preços recém-reajustados e outros defasados (que seriam reajustados nos dias seguintes), resultando em desequilíbrios.

O Real foi precedido por uma harmonização prévia dos preços, com o lançamento da URV (Unidade Real de Valor), uma espécie de moeda corrigida diariamente.

Embora a moeda do país fosse o cruzeiro real, preços, salários e contratos passaram a ser contados em URVs, cuja cotação era semelhante à do dólar.

Em 1º de julho de 1994, o cruzeiro real acabou e a URV se tornou o real. Graças à etapa anterior, eram reduzidos os desequilíbrios entre os preços na nova moeda.

2) Não houve choque – Lançados sem aviso prévio das medidas a serem adotadas, os planos anteriores ficaram conhecidos como choques econômicos.

O objetivo era evitar remarcações preventivas de preços e outras formas de resistência aos pacotes. A repetição da prática, porém, generalizou a especulação: empresários e trabalhadores viviam em permanente expectativa de novos congelamentos e controles de preços e salários.

As etapas do Plano Real -a URV e a substituição da moeda nacional- foram anunciadas com antecedência, eliminando a cultura do choque.

3) A dívida externa havia sido renegociada – Até 1994, o Brasil vivia a crise da dívida externa iniciada na década de 80.

Sem pagar regularmente os compromissos com o exterior, o país tinha crédito limitado e era obrigado a racionar dólares. Havia limites, por exemplo, para os gastos de turistas no exterior.

O Real foi precedido pela renegociação da dívida, o que permitiu a volta dos investimentos estrangeiros e a normalização do câmbio nacional.

4) O país contava com reservas em dólares – As reservas em poder do Banco Central na época, na casa dos US$ 40 bilhões, parecem minúsculas se comparadas aos quase US$ 380 bilhões de hoje.

Entretanto, era bem mais do que havia à disposição nos planos anteriores. Era o bastante para bancar as importações e os pagamentos da dívida externa.

Mais importante, foi o suficiente para, nos meses iniciais do Real, manter sob rígido controle as cotações do dólar, pilar fundamental do plano.

Mas essa política ruiu devido à repetição de dois equívocos do passado:

1) Não houve controle dos gastos públicos – A equipe econômica da época falava muito na importância do ajuste fiscal, mas a prática do governo era outra.

Sem a hiperinflação mascarando o desequilíbrio das contas públicas, ficou evidente que a arrecadação não era suficiente para as despesas do governo e os encargos crescentes da dívida pública.

Entre 1995 e 1998, foi crescente a desconfiança dos credores na capacidade do governo de honrar seus compromissos. Com isso, era necessário pagar juros ainda maiores para obter recursos.

2) Populismo – Assim como o Cruzado tentou em 1986 prolongar indefinidamente o congelamento de preços, o Real tentou prolongar o dólar barato.

O primeiro permitiu ao PMDB eleger governadores em praticamente todo o país; o segundo garantiu a reeleição do tucano FHC.

O dólar controlado barateava os importados e mantinha a inflação no chão, mas fazia disparar o deficit do país nas transações de bens e serviços com o exterior.

A combinação de deficit público e deficit externo afugentou os investidores e minou as reservas cambiais. Em janeiro de 1999, foi necessário abandonar o câmbio administrado.

O Plano Real chegava ao fim. Seu colapso, porém, não significou a volta da hiperinflação.

Ficou alguma dúvida? Faltou alguma informação?

Pergunte na área de comentários ou pelo Facebook.

Blogs da Folha

Publicidade
Publicidade
Publicidade